Querida mudei a casa!

Há 2000 anos atrás caminhava Jesus pelas estradas da Galiléia quando lhe saíram ao encontro 10 leprosos. Eles não ousaram chegar perto. À distância lançaram o pedido: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!” O coração suave de Cristo foi tocado. Como resposta Ele disse para eles se mostrarem ao sacerdote. E lá foram eles. Meio a cambalear, mas com uma firme esperança. Pelo caminho, diz a Bíblia (Lucas 17:11-19), eles foram curados.

10 homens a tropeçar nas pedras do caminho. A poeira agarrada aos seus cabelos desgrenhados e os farrapos pendurados das peles ao vento. Os curiosos afastam-se com o aviso que os homens lançam para o ar: “Impuros! Impuros!”

Entretanto, os farrapos caem das suas caras. Um deles exclama: “José, olha o teu nariz!” “O que é que tem o meu nariz” – responde José meio zangado. “É que tu tens um nariz!” José pára de repente. Todos chocam uns nos outros, como carros num choque em cadeia. Olham uns para os outros. Bocas abertas de espanto. Entusiasmados desenrolam os farrapos das mãos e dos pés. Os pés! Dão saltos de alegria, e aterram seguros no chão. Abraçam-se. Batem as palmas. E depois desatam numa corrida louca para a vila.

Todos... menos um. Este vira-se na direcção contrária. Na direcção de Cristo. Com os seus pés novos, ele corre para Cristo e cai por terra para beijar os pés perfeitos do seu benfeitor. E, é precisamente Cristo quem lança o comentário: “não foram 10 os curados, onde estão os outros 9? (Lucas 17:17) 10 foram limpos, mas só 1 agradeceu. 10 ficaram radiantes de alegria, mas só 1 demonstrou gratidão.

Impuros! Impuros!
Nos tempos de Cristo, a lepra era uma doença altamente contagiosa e que produzia uma vergonha social imensa porque atacava as extremidades do corpo, como mãos, pés e nariz. De acordo com a Lei, “as vestes do leproso serão rasgadas, e os seus cabelos desgrenhados. Cobrirá a cara e clamará: Impuro! Impuro! Ele habitará só e a sua habitação será fora do acampamento” (Levítico 13:45-46). Naturalmente, a cura duma doença destas implicava uma reintegração emocional, e estrutural tão profunda que só poderia gerar uma enorme gratidão. Mesmo assim a matemática não mente: só 1 foi grato!

Gratidão procura-se
Parece-me que a gratidão não é uma ciência complicada. Não é preciso ser astrofísico para a praticar, nem é preciso ter estudos ou talento especial. Basta ter coração. Acredito que a arte da gratidão está muito desvalorizada. Muita gente procura o extraordinário, o dramático e o espampanante para mudar de vida. Vivemos na sociedade do micro-ondas e pensamos que tudo o que é rápido, é que é bom. Esta realidade infiltrou-se na nossa vida espiritual. Por vezes dá ideia que gostaríamos que a nossa vida espiritual fosse estilo o programa “Querida, mudei a casa!” Íamos de fim-de-semana, e chegávamos a casa para constatar que o Espírito Santo tinha decorado, mobilado e pintado de novo a nossa vida espiritual. Tudo sem esforço.

Gratos! Gratos!
Precisamos acordar para o facto de que Deus muda-nos pouco a pouco. Ele trabalha em nós nas pequenas coisas da vida. Há um processo em marcha: “Indo eles pelo caminho foram purificados” (Lucas 17:14). A mudança nem sempre acontece nos grandes dramas mas nos gestos rotineiros, no sorriso que damos, no perdão que verbalizamos, na gentileza que mostramos, na gratidão que demonstramos. Cultivando a arte da gratidão, mesmo com um simples movimento dos lábios, diante de Deus, seremos radicalmente transformados. Radical, porque vai à raiz de quem somos. Transformados, porque reconhecemos que a Deus tudo devemos. Isto muda-nos. E muda os outros à nossa volta. Porque... cuidado! A gratidão é contagiante. Não se admirem de ver gente a gritar: “Gratos! Gratos!”

Samuel Nunes




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