A rosa na lapela!

Johny levantou-se do banco e ajeitou o uniforme da Força Aérea. Lançou um olhar ansioso pelas pessoas que rodopiavam no átrio da Estação Central de Nova Yorque. Uma multidão imensa. Será que ele iria conseguir reconhecê-la? Em bicos de pés tentou olhar por cima das cabeças que circulavam à sua volta. Os seus olhos procuravam uma jovem cujo coração ele conhecia, mas cujo rosto desconhecia. A rosa seria o sinal. A rosa na lapela.

Tudo começara há alguns meses atrás. Encontrara um livro de capa azul abandonado num banco de jardim. Não foi tanto o livro que lhe chamou a atenção mas as anotações nas margens, escritas numa letra miúda e com pensamentos sensíveis e ponderados. Na primeira página do livro apenas o nome: Rosa Parks. Demorou semanas a localizar o endereço dela. Escreveu-lhe apresentando-se e perguntando se podiam corresponder-se. Ela aceitou. O seu coração saltou. E no dia seguinte ele foi convocado para a frente de combate. Decorria a 2ª Guerra Mundial. Durante quase dois anos escreveram-se. Cartas que semeavam ternura, compreensão e afecto. Cartas que caíam como sementes em terreno fértil. O romance floresceu. Ele pediu-lhe uma foto, mas ela recusou: "tens de me amar com o coração, não com os olhos".

E agora tinham combinado este primeiro encontro às 19 horas na Estação Central de Nova Yorque. Porque não combinaram num sítio menos movimentado? A ideia tinha sido dela: "vai ser fácil reconhecer-me. Serei a única com uma rosa na lapela". Ali estava ele, com o livro de capa azul debaixo do braço, esperando uma rapariga que já amava ... mas sem rosto.

De repente na sua direcção veio uma jovem alta e elegante, com cabelos loiros a caírem graciosamente para os ombros. Olhos azuis lindos de morrer e sorriso que anunciava a Primavera. Queixo firme e decidido. Andar suave de quem pisa nuvens. Ele avançou para ela sem notar que não havia nenhuma rosa na lapela. "Quer companhia aviador?" disse ela enquanto sorrindo passava por ele. Quase impulsivamente ele foi atrás dela. E então viu a rosa. A rosa na lapela. Ela estava de pé um pouco atrás da jovem. Tinha cerca de 40 anos, cabelo empastado debaixo dum chapéu surrado. O seu corpo roliço era iluminado por um sorriso franco e por uns olhos bondosos. As suas meias grossas acabavam num par de sapatos de salto raso. Raso também estava o seu coração. A jovem elegante já se perdia de vista.

Ele suspirou e encheu-se de coragem. Empunhou o livro de capa azul e dirigiu-se à senhora: "será uma oportunidade de ter uma boa amizade" – pensou. "Eu sou Jonhy que lhe escreveu durante todos estes meses. Estou feliz por nos encontrarmos finalmente. Aceita jantar comigo?" – apresentou-se. A senhora dos olhos bondosos sorriu delicadamente: "Não me importava nada meu filho. Mas olhe, a jovem elegante que passou por si pediu-me que usasse esta rosa na lapela e disse que se você me convidasse para jantar que ela estaria à sua espera no restaurante do outro lado da rua. Ela contou-me que era um teste".

 

Samuel Nunes




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