A viúva, o Velho e o Rei!!!!!"Esta crónica foi escrita a 20 de Setembro de 2002 ainda o pó das Torres Gémeas não tinha assentado. Já foi há quase 4 anos. Todavia os princípios basilares estão lá. E, a crise dos cartoons faz parecer que tudo aconteceu ontem... hoje."
Uma mulher bonita tira o curso de direito e apaixona-se por um homem bonito e inteligente (um dois em um perfeito no imaginário feminino). Casam-se e têm um filha. A menina dos seus olhos! A mulher não trabalha, não sente necessidade de trabalhar porque o homem, um gestor portentoso, é um ás a multiplicar dinheiro. Ganha o suficiente para toda a família. Vivem numa casa linda, junta à praia. Passam todo o tempo que podem juntos, deliciando-se com os risos e travessuras do seu rebento. Para esta mulher, e para este homem, a família é o mundo, nada mais existe. E o seu mundo é perfeito! Numa bela manhã de Setembro, o homem sai para o trabalho, na cidade, onde tem um belíssimo escritório com vista soberba para o rio. Despedem-se. Ao meio-dia falarão pelo telefone. Mas, algo muda! O telefone toca mais cedo. Bem mais cedo, na verdade! É o homem a dizer “estou bem, senti um arrepio enorme, um estrondo terrível, chocou com a outra torre, aqui tudo bem, não fiques preocupada”. A mulher não percebe do que é que ele está falar. Ele diz: “liga a televisão”. Ela liga e vê as Torres Gémeas em Nova Iorque. Precisamente nessa altura o outro avião entra pela segunda torre, exactamente pelos nonagésimos pisos, donde o marido lhe está a ligar. O telefone fica morto. Ela grita o seu nome, mas do outro lado só responde o silêncio. Ela acabou de assistir em directo à morte do seu marido.
Ela deseja que ele tenha tido uma morte súbita. Repentina. No entanto, um dia encontram uma mão com a sua aliança de casamento. Ela fica atormentada pela ideia de que ele não terá sido feito em poeira imediatamente. A dúvida instala-se: terá ele sofrido muito? E o desgosto vai consumindo esta mulher raivosa e só. Imensamente só, num mundo de repente tornado enorme e hostil.
11 de Setembro
Naturalmente o 11 de Setembro traz lições incontornáveis. O ataque a Nova Iorque não foi isolado. Todo o estilo de vida do Ocidente foi atacado. Mais ainda, os valores Judaico-cristãos foram lesados. Direitos humanos, liberdade de expressão, paz e harmonia, foram seriamente ameaçados. O obscurantismo e a barbárie viram a luz do dia. Por outro lado, recentes desenvolvimentos levam-me a pensar que o espírito antiterror americano, está a criar ninhos de terror por todo o lado. Há claramente dois pesos e duas medidas porque se Sadam, o ditador, deve ser derrubado, há outras ditaduras que recebem protecção americana, como o Kuwait onde as mulheres são açoitadas na praça pública e se cortam as mãos aos ladrões. Já Hamlet dizia que “a loucura dos grandes não pode passar sem vigilância”; e Bruce Wilkinson avisa no seu livro “A Oração de Jabez” que “o sucesso traz consigo grandes oportunidades de fracasso”. Não me parece que se limpe o terror com mais terror. Por muito lícito que ele seja! Não é o poder bélico que sustenta uma nação. “O que torna forte um governo é a justiça” (Pro 16:12 Versão o Livro). É a “prática da justiça” afirma Isaías “que traz paz, tranquilidade e segurança para sempre” (Is 32:17 Versão o Livro). É o próprio ex-presidente Bill Clinton que num artigo recente afirma: “a ideia de comunidade implica acreditar num futuro não separado mas partilhado em paz, um mundo melhor com mais parceiros e menos terroristas”. A história desta viúva traz em exemplo imenso de dignidade. Uma dignidade temperada no espanto de nos pensarmos num sonho, até ao dobrar dos sinos.
O Velho
O Velho é daqueles velhos que nós sempre imaginámos assim mesmo: velho. É só com 86 anos que ele tem o primeiro filho (Gén 16:16). E tem 99 anos quando Deus decide dar-lhe o nome pelo qual é conhecido: Abraão (Gén 17:5). E nesse nome, pai duma multidão, vai toda a esperança física e espiritual duma nação. Em Abraão seriam abençoadas todas as famílias da terra, e como sinal da aliança que Deus faz com Abraão, surge Israel que é chamado o “povo da Aliança”. Israel aparece como fiel depositário das promessas de Deus, e toma posse dos elementos mais emblemáticos: a terra. A terra é santa, é prometida, mana leite e mel, é fecunda, e é conquistada por acção milagrosa de Deus.
A terra
No rescaldo do 11 de Setembro os acontecimentos em Israel têm enchido o olho de muitos evangélicos. As opiniões sobre o assunto são diversas, e não quero aqui entrar em areias movediças teológicas. A pergunta que se impõe é clara: como devem os crentes reagir ao conflito Israelo-Palestiniano? Naturalmente que há razões Bíblicas para tratar os dois lados da disputa com justiça cívica. Ou seja: a Bíblia não nos ensina a sermos parciais com qualquer dos lados por algum deles ter a benção divina. Vamos por partes. (1) não nego que Israel tenha sido escolhido por Deus, de todos os povos da terra, para ser um recipiente especial das bênçãos de Deus, reveladas na história da redenção que culminou em Cristo, o Messias. “Porque Deus vos escolheu de entre todos os povos da face da terra, para que sejam especialmente seus” (Deut 7:6, Versão Boa Nova). (2) não nego que Deus prometeu a Israel a terra, presentemente em disputa, desde os tempos de Abraão. Deus disse a Moisés: “esta é a terra que prometi a Abraão, a Isaque e a Jacó, dizendo “à tua descendência a darei”” (Deut 34:4). Todavia, penso que estes factos incontornáveis não dão direitos divinos a Israel de possuir a terra no tempo presente. Israel pode ter o direito legal de habitar a terra. Também pode não ter. Mas, essa decisão não depende de privilégios ou prerrogativas dadas por Deus. Porquê? Principalmente por duas razões.
1 – Israel rejeitou a Aliança. Por várias vezes Israel quebrou a aliança com Deus. O estatuto privilegiado e o direito a habitar a terra, estão condicionadas à fidelidade de Israel. Assim Deus diz a Israel: “se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos” (Ex 19:5). Torna-se claro que se Israel não cumpriu a sua parte na aliança, daí não ter direito à bênção de Deus, pelos termos da Aliança. Mesmo no cativeiro, em agonia espiritual e nacional, Daniel orava: “Ah Senhor! ... temos pecado e cometido iniquidades ... fomos rebeldes, apartando-nos dos teus mandamentos ... a Ti Senhor pertence a Justiça, mas a nós o corar de vergonha, os homens de Israel por causa das transgressões que cometeram contra Ti” (Dan 9:4-7). Israel não tem direito à terra prometida enquanto rejeitar as condições sine quo non da Aliança feita com Deus. E também não é legitima a agressão doutras nações que foram severamente punidas por Deus quando tentaram molestar Israel.
2 – Israel rejeitou o Messias. Este é o acto extremo na quebra da Aliança com Deus. Deus prometeu a Israel “um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros, e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9:6-7). Mas, foi com lágrimas que o Príncipe da Paz olhou para Jerusalém dizendo: “Ah se conheceras por ti mesma o que te é devido à paz! Mas isto agora está oculto aos teus olhos ... porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação” (Luc 19:42-44). Quando os construtores rejeitaram a pedra de esquina, Jesus mesmo afirmou: “o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produza os respectivos frutos” (Mat 21:43). Parece-me líquido que embora Deus tenha planos para o remanescente étnico fiel em Israel (Rom 11:25-26) (isso é assunto para outra ocasião), por enquanto Israel como um todo está hostil para com o Deus da Aliança. São inimigos de Cristo e do Evangelho (Rom 11:28). E por isso Deus expandiu a Sua obra Redentora aos “confins da terra”, incluindo os Palestinianos, oferendo salvação pela Fé em Jesus Cristo. A pedra de toque no Médio Oriente é: “acreditas em Cristo como teu Salvador?”. E até ao grande dia em que todos, Judeus e Palestinianos, serão julgados pela sua decisão em relação a Cristo, os direitos das nações sobre o território que ocupam são determinados em função da ordem cívica e da compaixão. Nunca por mandato divino.
O rei
Em Granada, no ano de 1498 começa a idade das trevas do Islão. Boabdil, o último rei mouro de Espanha, teve de abandonar a cidade querida diante da derrota da suas tropas. Num gesto de saudade antecipada subiu pela última vez ao alto da Alhambra, o palácio real, e chorou. Chorou pela vergonha de se ver derrotado. Chorou pelo reino que perdia. Chorou pelo palácio com os espelhos de água, os claustros e a beleza artística que não mais veria. Chorou de raiva pela vitória dos inimigos. Sua mãe ao vê-lo chorar amargamente lança-lhe em cara toda a dor do momento: “chora como mulher o que não soubeste defender como homem!” Começa aqui a longa noite do Islão!
O quadro
Não é preciso muita ginástica mental para chegar á conclusão que a riqueza cultural exposta no Palácio do Alhambra, em Granada, nada tem a ver com a tacanhez dos Talibans. Foi das reportagens mais luminosas que deram recentemente na televisão, a reabertura da Galeria Nacional de Kabul, no Afeganistão. Foi às escuras! A electricidade falhou novamente e ninguém conseguiu por o gerador a funcionar. O ambiente era sombrio e lúgubre não tanto pela falta de luz, mas mais pela exibição de quadros rasgados e esculturas partidas, herança dos Talibans. Mas havia um tom de esperança no ar. Depois dos discursos oficiais, o Dr Asefi, director da galeria, teve um momento de delicioso triunfo. Durante a ocupação Taliban, o Dr. Asefi, com risco de vida, disfarçava as figuras humanas nos quadros a óleo, aplicando uma finíssima camada de aguarela. Salvou assim, centenas de quadros que os Talibans iriam destruir, por acharem sacrilégio qualquer representação das formas humanas. Agora, perante uma assembleia de ministros, jornalistas e intelectuais, o Dr. Asefi mergulha um pano em água e começa a retirar a capa de tinta de aguarela, revelando as figuras originais, pintadas a óleo. Lindas e intactas! No momento presente, muito do que nos chega do Islão, é uma caricatura dos avanços científicos em que a cultura Árabe foi pioneira. As matemáticas, as ferramentas, o ênfase na saúde pública e mesmo a pesquisa médica, são apenas recordações do passado. E, esta é outra lição do 11 de Setembro: o mundo Árabe já não é o que era.
Samuel Nunes

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