Cura para o Conflito (Mat 5:17-26)

Durante a 1ª guerra mundial (1914-18) surgiu a acusação: “A Igreja estava a ser desacreditada pela guerra”. Imediatamente um cristão de primeira água chamado Chesterton escreveu um livro – Everlasting Man (homem eterno) - defendendo que “a Igreja é precisamente o único refúgio para as vítimas da guerra. Na verdade a guerra destaca a função redentora da Igreja”. E ele dava exemplos. O dilúvio exalta a arca porque o dilúvio torna a arca essencial; o Mar Vermelho destaca o Deus de Israel porque revela o poder do Deus que Israel adorava.

Da mesma forma a Igreja não é desacreditada pelo conflito que nela se desencadeiam, mas as contendas destacam o amor e a graça de Deus para com criaturas pecadoras. Não precisam de médicos os sãos, mas sim os doentes – disse Cristo. E como nós precisamos da Graça de Deus!

Qual é o ambiente? Neste texto bíblicos temos um contraste entre religiosidade e espiritualidade: “se a vossa justiça ñ exceder a dos fariseus, jamais entrareis no reino dos Céus” (v.20), é o veredicto de Cristo. Ele contrasta o comportamento exterior com a atitude interior. O comportamento religioso exterior centra-se nas regras, enquanto a atitude interior do coração preocupa-se com a aplicação das verdades bíblicas na área da emoção, da mente e dos relacionamentos. E Cristo dá exemplos desta verdade. A lei diz “não matarás” (v.21). Tudo bem. Muitos de nós não matamos. É um argumento muito ouvido – “eu não sou má pessoa, não matei ninguém, não faço mal a uma mosca”. Todavia, Cristo vai mais longe: “se ofenderes alguém s/ motivo, ou se lhe chamares raca ou louco, vais parar ao inferno” (v.22). Raca, é a palavra grega para cabeça de vento, estúpido, desmiolado; e louco (moros no grego) é o título dado a pessoas s/ moral, maus carácteres, sacanas, cafagestes. A ideia base é a seguinte: “não matar” é fácil de cumprir. Eu posso odiar alguém de forma figadal sem matar essa pessoa. Sou “justo” desde que não mate essa pessoa, certo? Não! Mil vezes não! Pela cartilha relacional de Cristo se eu olho com desprezo, se falo mal, se viro cara na rua a alguém ... eu chumbo. E vou parar à prisão (v.25). E é precisamente esta atitude de aborrecer o nosso irmão e semelhante, este desprezo que gera tanto conflito.

Coloca-se então a questão: Como evitar estes conflitos?

1 – O desprezo / desrespeito é um pecado “inferno de fogo” (v.22) Cristo refere-se aqui ao ruminar e marinar em molho brando da ofensa da raiva e do ressentimento. Sentimentos que controlam e acabam por envenenar todo o nosso sistema de vida.

No meu bairro há 2 taberneiros que têm cafés ao lado um do outro. Há alguns anos zangaram-se e essa animosidade é pública na vizinhança. No outro dia perguntei a um deles: “Senhor António, porquê esta zanga antiga?” Fiquei banzado com a resposta: “Ele fez um comentário jocoso sobre o meu carro! Isso eu não admito!”

Há algum dias falaram-me dum casal que celebrou 40 anos de casados. Uma data bonita. Depois veio um dado curioso. No 1º ano de casamento o marido disse que estaria em casa às 7h para jantar, mas passou por casa dum amigo antes, esqueceu-se das horas e quando apareceu em casa eram 11h. O dilema era que para agravar a situação a mulher tinha feito o seu prato favorito: bifinhos c/ cogumelos. Logo ali ela jurou que nunca mais iria fazer bifinhos com cogumelos. E durante 40 anos ela cumpriu esta promessa.

Dois exemplos que claramente nos ensinam que o desrespeito é gerador de conflitos.

2 – O desprezo / desrespeito é arrogância “s/ motivo” (v.22) Nós somos sofisticados demais para usar a palavra “odiar”. Mas todos somos peritos em atitudes de paternalismo, aquele olhar de cima p/ baixo, o ar superior. E todos somos especialistas em guardar rancor. Achamos que temos sempre razão... a maior parte das vezes não temos motivos para estarmos zangados e as nossas razões são patéticas para Deus.

Ouvi recentemente a história dum Pastor que foi despedido pela forma como dizia a palavra “baptismo”; há zangas que acontecem porque alguém não gosta da nossa forma de vestir; rimos alto demais, falamos com sotaque ou fazemos caretas quando cantamos.

Foi uma notícia que me chocou. A Máfia Chinesa a actuar em Londres contrata mão obra barata da China para trabalhar nos baixios do Rio Tamisa na apanha de amêijoas. Entretanto, há alguns meses atrás o tempo estava gélido, o nevoeiro era cerrado e quando o grupo de ilegais foi para a baía durante a maré baixa, ninguém lhes falou da maré que sobe nem do mau tempo. Com a subida da maré morreram 21 pessoas.

Este é um exemplo extremo de desprezo e arrogância pelos outros. Mas existe mesmo!

Naturalmente que há pessoas com quem convivemos e com quem não simpatizamos. Não é um click, não há sintonia. Quando isso acontece comigo (e é tão frequente!) eu considero isso uma falha do meu carácter. Oro no sentido de que Deus me dê força para tratar essa pessoa com cortesia e generosidade e respeito. Ah, isso é hipocrisia, isso é fazer jogos. Não. de forma alguma. Essa ideia revela precisamente a arrogância de que estou a falar. Ter uma atitude de cortesia e respeito não é hipocrisia. É espiritual! É santo! É imitar o coração de Deus

3 – Reconciliação é comigo “primeiro vai reconciliar-te” (v.24) Trazer a nossa oferta ao altar é apenas um ritual religioso e não leva a Deus se não estamos bem com o nosso irmão. Os nossos dízimos e ofertas não impressionam Deus, o nosso louvor e as nossas orações não impressionam Deus, se não estamos bem com o nosso irmão. Serão exercícios de futilidade espiritual, se deixamos os conflitos com outros, por resolver.

Nota: Cristo diz - “se teu irmão”. Ou seja, embora não estejamos ofendidos a iniciativa deve partir sempre de nós. E temos o dever de largar, perdoar e reconciliar. Peço perdão, fui violento e passei das marcas. Peço desculpa, pensei mal de ti e não o devia ter feito. Peço perdão, pedi dinheiro emprestado e nunca mais paguei

Atenção: reconciliar não é rastejar! Há pessoas a quem pedimos desculpa que esperam uma humilhação da nossa parte que beijemos o pó da terra. Isso não é bíblico. Devemos confessar o erro com sinceridade e humildade; sem humilhação.

4 – Reconciliar é melhor do que estar correcto “entre em acordo” (v.25) Um senhor brasileiro ficou riquíssimo de repente. Recebeu 75 milhões de dólares da Sony como indemnização. Durante anos ele afirmava ser o inventor do jogo “gameboy”. A Sony ignorou o homem durante 15 anos e o assunto arrastou-se em tribunal. Agora a Sony teve de pagar uma fortuna. Teria poupado muito dinheiro se entrasse em acordo cedo com o homem. Integrá-lo nos quadros da empresa, comprar a patente, enfim... quis estar correcta e perdeu!

Cristo afirma que é melhor“um acordo s/ demora”, é melhor reconciliar do que estar correcto porque sem reconciliação podemos ir parar à “prisão” (v.25). O apóstolo Paulo é sábio ao afirmar que “se possível, no que depender de ti, vive em paz c/ todos os homens” (Rom 12:18). Que Deus possa iluminar o nosso caminho e sorrir nas nossas vidas.

 

Samuel Nunes




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